O outro lado da moeda...

Atuo no Mercado de Seguros há 30 anos, sendo 12 anos no Mercado de Saúde Suplementar e, desde o princípio da minha carreira nessa área tão peculiar e desafiadora, ouço dizer que os planos de saúde estão ficando cada vez mais caros.

E é a mais pura verdade. Mas por quê?

Fiz uma rápida enquete no LinkedIn sobre o assunto e devo confessar que foram poucos votos (rs), mas ainda assim percebi que alguns fatores importantes não são conhecidos ou analisados.

Começo meu blog afirmando que sinto a mesma dor que você, quando vou renovar o meu seguro saúde.


São altos reajustes; reajustes estes com uma política própria que fogem aos índices conhecidos popularmente e que somos “obrigados” a aceitar.


É a tal da inflação médica e, nessa incerteza de valores, sem acesso a todos os dados que geraram esse resultado, resta-nos chamar as “Genis”, quer dizer, alocar as seguradoras e operadoras no lugar de “Joga pedras na Geni”, sem se dar conta, por exemplo, que os aventais e máscaras aumentaram 500% na pandemia e quem paga o preço?


Esse é um dos inúmeros fatores que afetam os custos dos planos de saúde.


No entanto, é oportuno lembrar que as operadoras de saúde são gestoras dentro de um sistema de mutualismo dos recursos de todos e todos precisam trabalhar juntos para que esses recursos sejam suficientes para cobrir às necessidades de todos. E, temos muito mais necessidades do que recursos, assim, precisamos fazer escolhas garantindo a sustentabilidade do sistema de saúde.

Outro fator inquestionável que me chama a atenção, enquanto profissional do setor, é a impressão que se tem que no Brasil, quando se fala em saúde suplementar, entende-se cobertura total e irrestrita, ou seja, tem que oferecer e cobrir tudo, nos esquecendo de que aqui também há uma restrição de recursos.


Há um limite do que é possível investir em saúde. Diante a esse limite há que se ter um processo sério de avaliação para decidir o que vai ou não ser ofertado pelo sistema de saúde, sem o qual cairemos em um abismo.


http://www.paranacooperativo.coop.br/ppc/index.php/sistema-ocepar/comunicacao/2011-12-07-11-06-29/ultimas-noticias/132750-saude-iii-ans-analisa-proposta-de-normativa-que-definira-novas-coberturas-dos-planos-de-saude


Outro ponto inquestionável sobre os altos custos é a diminuição em massa de segurados, segundo a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) e, com isso, um sufocamento no Sistema Único de Saúde (SUS).

Ou seja, “se ficar o bicho pega e se correr o bicho come”!

Olhar esse cenário e entender ser um dado crítico de importância para nós como país é um alerta, pois não temos recursos suficientes para atender bem essas pessoas no SUS e deixamos de ter uma oportunidade de trazer essas pessoas para a saúde suplementar por conta dos altos custos praticados.


O fato é que existem justificativas, ou melhor, explicações matemáticas para esses aumentos e, portanto, nem tudo é culpa da “Geni”.


Essa análise tem um cunho de explanação aos consumidores. Não pretendo esgotar o tema ou abordar questão de tributos, gestões, fraudes ou outros, mesmo ressaltando de que, também, são fatores que afetam os custos e a própria sustentabilidade do sistema de saúde.


Minha ideia com esse post é resumir alguns fatores que entendo como propulsores dos elevados custos, que podem ou não ser conhecidos.


Meu objetivo não é fazer nenhum juízo de valor, e sim elencar alguns motivos que devem ser considerados.


Vamos a eles:


1. Pagamento da Cadeia

O primeiro vilão ao aumento de custos é o pagamento por serviço – o fee for service – ou seja pagar pela quantidade dos procedimentos realizados. Esse formato, além de contribuir para o aumento das mensalidades e perda de qualidade assistencial, também acarreta dificuldades de negociações na cadeia produtiva.

Temos o desequilíbrio da balança, de um lado a necessidade de se mudar o foco da doença para a prevenção e, do outro, os profissionais orientando a realização de todos os procedimentos.

Segue um exemplo da disparidade de ressonâncias realizadas no Brasil em comparação a outros países. Isso é fato, é dado real.

https://www.iess.org.br/?p=blog&id=200


Esse modelo tradicional de remuneração – Fee for service - prevê que os valores repassados das operadoras aos hospitais e profissionais são embasados no total de procedimentos ao invés de análise de performance, ou seja, um tratamento alongado muitas vezes é o que se mostra mais interessante do ponto de vista financeiro e ao final quem paga a conta?


2. Judicialização da saúde

O indivíduo, de uma forma geral, não é uma pessoa consciente do custo de saúde, ele consome aquilo que o sistema quer que ele consuma, é levado a consumir.


Fazendo um paralelo com a cultura de cobertura total e irrestrita versus o limite de recursos, esse mesmo indivíduo frente a uma negativa de cobertura recorre a justiça.


Nasce, assim, a judicialização fomentando um direito infinito para um recurso finito.

E quem paga a conta ao final?

3. Nova Tecnologia


Nunca se descobriu tanto em tão pouco tempo. Vivemos em uma evolução tecnológica. A cada minuto, novas invenções, novas descobertas, novas soluções.


Mas, ao contrário de alguns outros setores a inclusão de novas tecnologias no mercado de saúde suplementar sempre oneram o sistema, pois o ciclo de substituição é muito rápido, impedindo a redução progressiva de valores, além disso as duas tecnologias – novas e antigas – subsistem, ou seja, os novos custos somam-se aos antigos, impactando em aumentos de custos.

Veja o exemplo do exame de Raio X que subsiste com a ressonância e tomografia.

4. Falta de opções no Mercado


É notório que as operadoras e seguradoras de saúde são extremamente importantes. Imaginem se todos dependessem do SUS?


Por outro lado, temos os obstáculos legais que coíbem o mercado privado ser mais ágil e criativo.

A legislação travou as possibilidades. Atuou fortemente pela proteção ao consumidor com a Lei 9.656/98, no entanto, cerceou a liberdade de criação de produtos para atendimento de um maior público.


Isso afeta diretamente a base do seguro – o compartilhamento.


O objetivo do compartilhamento de riscos é oferecer mais valor em saúde e mais efetividade nos resultados, o foco de todos nós que atuamos no setor;


Logo, a falta de opção de produtos no Mercado, pacotes mais concisos que possibilitassem o acesso da maioria, prejudica a entrada de novos e possíveis recursos, o que impactaria na diminuição dos custos para todos.

5. “Prevenir é melhor do que remediar”


Em minha profissão, eu acompanho várias empresas e beneficiários e percebo o quanto as pessoas estão desengajadas da sua própria saúde.


Atuar na raiz, na prevenção é uma necessidade que urge.


A prevenção educa e evita que as patologias sejam mais longas, resultando em uma piora na qualidade de vida e mais custos.


Vejam como exemplo a grande procura por um PS – Pronto Socorro.


No Brasil, é algo cultural e às pessoas nem se dão conta de que é um local de risco. Se você vai ao pronto socorro com sintomas de uma gripe, por exemplo, pode sair com pneumonia.

Nós, enquanto sociedade civil, precisamos mudar a nossa cultura.


Conclusão


Considerando todos esses quesitos, o resultado é o impacto na área de saúde como um todo, seja na saúde pública ou privada. Desafio global que precisamos enfrentar.


E é preciso coragem para mudar e superar os desafios do setor.


Dentre as maiores dificuldades que temos hoje, está o sentido que concebemos a saúde.


Crer que saúde é um direito em um conceito mais ampliado e compreender uma política de proteção social sob a égide da seguridade social – saúde, assistência e previdência – está muito mais relacionado a crença que muitos de nós temos, mas que nem toda sociedade brasileira acredita.


Tornar essa crença em realidade é um desafio.


Ter um pacto social que assuma, de verdade, que o SUS é um patrimônio nacional e que todos têm direito à saúde é o que precisamos alcançar para a nossa sobrevivência e sobrevivência do setor.

Até a próxima!!! Se cuidem!!!

Felicidades!


Mírcia Ramos

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