A minha história de fumante inveterada

Atualizado: 5 de Out de 2021

Faz 14 dias que estou sem fumar e resolvi parar por uma consciência própria.

Aos 51 anos de idade e 36 fumando posso dizer que pertenço a uma geração que pegou a curva do gráfico. Vivi toda a publicidade que dava glamour ao cigarro, que o colocava como algo chique, representado por pessoas atléticas e bonitas e ao som de músicas, simplesmente, maravilhosas.


Da minha geração quem não se lembra das propagandas do cigarro Hollywood – o sucesso?

Agora, imaginem, como uma adolescente de 15 anos de idade via e sentia essa propaganda? Claro que correspondia ao que eu desejava ser!


E, assim, começa a minha história com esse vilão tão amado – o cigarro.


Passado algum tempo, a realidade transforma o vilão amado em vilão perigoso.


Vivi, nesse momento, o reverso da história, quando a mídia deixa de divulgar o cigarro como algo jovial, gostoso e agregador e começa a falar mais abertamente sobre seus malefícios - a desmontar sua imagem.


Vivenciei os dois lados e há tempos travava uma batalha interna com minha consciência. Ela exigia o parar de fumar, mas o vício gangrenava cada célula do meu corpo, reivindicando só mais um trago.


Ouvi depoimentos e testemunhos de pessoas que conseguiram parar de fumar. Algumas com uma facilidade que dava inveja e outras com um esforço que dava medo.


Li sobre o assunto, assisti a vídeos e a percepção de estar alimentando algo ruim era tão notória que não podia mais me enganar.


Creio que aqui foi o 1º degrau para dar início a essa luta – a aceitação.


Aceitar a força do vício, aceitar o mal que me faz e aceitar que seria uma batalha difícil era um processo diário que corria à minha mente a todo instante.


O fato era que eu fumava um cigarro e, ao final, ficava com culpa na consciência. E foi o crescimento dessa culpa que serviu de amadurecimento e fortalecimento do eu posso, eu quero, eu vou parar de fumar.


Não está sendo fácil. Eu fumava desde os 15 anos, então foram 36 anos de vício. Uma vida quase conjugal e carnal com o cigarro!


Ainda assim, a consciência pesava a cada trago dado no último cigarro do dia. Aquele cigarro de puro prazer, aquele cigarro que você se pega em um momento de reclusão íntima, a hora da verdade! O papo era reto, comigo mesma.


Toda noite, um olhar encorajador se despedia do cigarro entre meus dedos, à medida que a fumaça saía da minha boca e se dissipava no ar. A noite caía, o sono acalentava meu desejo de parar de fumar, mas assim como um filme de ficção, no raiar do dia, a sede por um trago falava mais forte e todo o processo vivido na noite anterior era esquecido como se fosse uma cena de um filme.


Que sensação de fracasso rotineira eu vivia!


Preciso de ajuda, pensava!


Vários médicos já falaram que a minha saúde estava indo embora e que já estava colhendo os efeitos desse hábito, como pressão alta, tosse, fôlego curto. Em casa, meu marido vivia preocupado comigo. Meus filhos sempre pedindo para eu parar.


Preciso de ajuda, pensava!


Sozinha não consigo, afirmava!


Era como um mantra que eu alimentava para justificar a minha inação frente a uma realidade que se instalava e ganhava força diariamente.


A forma como ditamos as regras que são replicadas dentro da gente, acabam por definir e colonizar nossa subjetividade.


O que sentimos, como sentimos, por que sentimos, tudo está mergulhado nisso.


Nossas emoções, nossas atitudes e nossas vivências estão tão escoradas nesse pensamento hegemônico de fracasso que é difícil enxergar as amarras estando dentro.


E esse foi o 2º degrau que subi – parar de mentir para mim mesma.


Foi conversando abertamente comigo que entendi o que o cigarro significava na minha rotina. Percebi que apesar de ter a consciência pesada, conhecer os riscos à minha saúde, quem queria mesmo que eu parasse de fumar era meu marido, os médicos que me atendiam, meus pais, meus filhos... eu mesma não queria parar. Não ainda.


Estava indecisa, hesitando entre o prazer da fumaça e a consciência dos danos.

E assim foram mais alguns anos.


E, no decorrer desse tempo, aprendi que para tomar uma decisão, você precisa traçar uma estratégia que faça sentido para você mesma e para a sua nova realidade.


Cheguei ao 3º degrau – a decisão


Havia saído daquela situação de dúvida e ambivalência para uma postura de resolução.


Eu estou pronta para parar, essas palavras ecoavam na minha mente!


Parei!


Ainda tenho passado por momentos muito difíceis, mas tenho usado algumas técnicas para lidar com a ansiedade e segurar a vontade de fumar.


Uma delas é seguir o ensinamento do AA – Alcóolicos Anônimos:

Um dia de cada vez!

É entender que daqui em diante, não quero mais fotos assim!


E o que aprendi nessa luta contra o tabagismo?


Aprendi que já tinha usado todas as táticas possíveis e imagináveis para parar de fumar, desde cigarros eletrônicos, adesivos, chicletes, tratamentos e que nada funcionava, porque eram pautados em uma decisão de fora para dentro, ou seja, eu mesma não achava que parar de fumar era importante. Eu mesma não estava convencida de que eu precisava agir.


Mas, dessa vez, foi diferente.


A decisão de parar foi de dentro para fora.


Subi mais um degrau – enfrentar a dependência de frente, face to face.


Sei que meu caminho nessa brava luta contra o cigarro é uma escadaria longa e que apenas começou. Mesmo certa da decisão de abandonar esse vício, tenho que vencer os outros obstáculos, quais sejam: dependência física, psicológica e do condicionamento.


Não é uma luta justa, mas é uma luta que precisa ser lutada por mim!


A dependência física causada pela nicotina atua diretamente no cérebro e provoca a tão famosa síndrome da abstinência, cujos sintomas refletem, na verdade, no ajuste do organismo à ausência da substância. Ou seja, nada mais do que a recuperação do corpo para seu estado natural e saudável.


Já a dependência psicológica está ligada ao espaço que o cigarro ocupa na minha vida e que espaço grande ele ocupa! Era comum chamá-lo de amigo, a quem se recorria para lidar com emoções extremas, criando assim um vínculo emocional.


Se estava feliz, o cigarro era meu aliado, se estava triste, o cigarro era meu companheiro, se estava nervosa, o cigarro era meu ouvinte. Sempre havia um motivo para fumar.


Afinal a dependência é um estado de sujeição!


No entanto, após esses singelos dias de ex-fumante, vivendo e experimentando essa nova fase em minha vida, ouso afirmar que, em meu entendimento, o aspecto mais arraigado e por isso mais difícil de combater é o condicionamento. São as questões comportamentais e as conexões que estabeleci, ao longo desses 36 anos, entre determinadas tarefas rotineiras, como tomar café ou dirigir, e fumar.


Romper esses hábitos é a parte mais difícil do meu dia de ex-fumante.


E por que escrever sobre isso e expor essa fragilidade ou dependência?


Bem, primeiro é para seguir com o conselho do comprometimento alheio com a ação – PARAR DE FUMAR.

Estudos demonstram que quando você se compromete com o outro e empenha a sua palavra, desperta uma força interna capaz de ajudá-lo em seu propósito.


Sim, caros leitores, estou me comprometendo com vocês!

Segundo, porque o Dia Nacional de Combate ao Fumo é comemorado hoje, 29 de agosto e tem como objetivo reforçar as ações nacionais de sensibilização e mobilização da população para os danos sociais, políticos, econômicos e ambientais causados pelo tabaco.

Sem desejar me revestir daquela chata que parou de fumar e agora só vai falar sobre esse assunto (rs), essa data representa, realmente, uma ação de conscientização sobre a importância de largar o cigarro e quaisquer itens que possuam tabaco.


Se interessou? Então, vem comigo!

Como falado anteriormente, o cigarro era tido como algo glamoroso. As propagandas, filmes e novelas, mostravam que o ato de fumar fazia parte de uma cultura social elitizada de pessoas consideradas chiques, bonitas e inteligentes. Com o passar do tempo, os danos causados pelo cigarro foram tomando lugar na mídia e as propagandas conhecidas já não eram mais permitidas.

Hoje em dia, todos têm consciência que fumar causa danos irreversíveis à saúde. Porém, o problema é que este, como os outros vícios, não são fáceis de serem deixados de lado.