Storytelling

Vocês já ouviram àquelas expressões:


“Isso que é presente de Grego.”

"Dar com uma mão e tirar com a outra.”

“Quando a esmola é demais, o santo desconfia!”


Pois bem, foi mais ou menos assim, com essas expressões na mente, que encontrei um cliente em uma visita comercial para renovação do contrato de saúde empresarial.

E, se pararmos para pensar, as expressões “caem como uma luva” na situação atual do Mercado de Saúde Suplementar, você não acha?

No ano da pandemia a maioria das empresas foram agraciadas com isenção de reajustes em suas renovações, bem como foi sinalizado um marco inédito na história de saúde suplementar – VCMH (Variações Médicas e Hospitalares) negativo, o que levou, inclusive, a obtenção de descontos nas mensalidades das pessoas físicas e alguns casos até nas pessoas jurídicas.

Clientes satisfeitos e gratos pela demonstração de parceria de seus respectivos players em entender a perda financeira em massa causada pela pandemia e, de certa forma, a contribuição dessa ação na manutenção dos benefícios, o que naquela época era o bem mais precioso.


E, de repente, viramos mais um ano e novas negociações surgiram, negociações difíceis e pesadas frente ao exorbitante aumento da sinistralidade, resultado da enxurrada de procedimentos eletivos represados e do enorme aumento de cronicidades.

Eis que os reajustes propostos para as renovações empresariais têm chegado ao patamar do absurdo, mesmo sendo totalmente justificáveis.

Sentir-se enquadrado na interpretação de alguma das expressões acima tornou-se cotidiano e inevitável.

E, foi assim que encontrei meu cliente. Sentindo-se enganado por assim dizer. Então fui questionada sobre o risco do negócio das Seguradoras?


De sua boca ecoavam palavras de descontentamento e indignação, como, por exemplo:


“Ter um negócio onde todos os prejuízos serão ressarcidos não é ter um negócio. Assim é fácil”.
“Qual é a justiça que existe em uma relação como essa, onde eu pago de todo e qualquer jeito? Pago pela mensalidade sem saber se vou usar ou pago na figura do reajuste um suposto prejuízo que causei por ter uma utilização superior ao patamar que a seguradora determina como ideal. Ideal para quem?”.

“Ano passado recebemos isenção e esse ano recebemos o maior percentual de reajustes dos últimos anos. Qual foi o benefício, então?”

Regularmente somos questionados sobre os motivos do aumento desacerbado dos serviços privados de saúde. É uma questão que ocorre em roda de amigos, familiares e clientes.


Existem muitos motivos para justificar a constante elevação do custo dos planos de saúde, mas vejam que a dor desse cliente era superior ao custo financeiro. Ele vivia a sensação de descrença.


Então pautada nesse sentimento vou me ater apenas aos pontos estruturais, sem discutir modelos de negócios, má gestão das companhias, fraudes etc. Somente com os dados estruturais já enxergamos uma coerência para esse contexto, apesar da descrença que habita as mentes dos clientes e, entendendo que essa sensação é genuína, minha ideia é apenas dar uma resposta que seja compreensível e que possa amenizar esse desconforto.


Vamos lá!


1) Avanço da idade populacional


Com o avanço da idade há uma tendência na maior utilização dos serviços médicos, mesmo em indivíduos sãos. É o que chamamos no mercado de envelhecimento da população. Como os preços dos planos de saúde são calculados, também, com base no mutualismo e na sinistralidade total temos um custo dividido entre todos os participantes, independentemente da idade e com isso, automaticamente, todos pagam mais caro.


2) Falta de produtos alternativos com menos coberturas


Há tempos a sociedade clama por opções mais restritas, no entanto, a nossa legislação obriga aos planos de saúde fornecer a cobertura integral (ROL da ANS), o que por um lado é uma garantia, mas por outro ocasiona um efeito reverso, na medida que, para as operadoras cumprirem a legislação precisam ofertar produtos completos e que absorvam todos os riscos, inclusive com a inclusão de novos procedimentos e coberturas após o fechamento do contrato com o cliente, resultando em onerar os produtos ofertados.


3) Regulação com viés socialista


O marco legal que regulamenta os planos de saúde, a Lei 9.656/98, possui mais de 20 anos e à época foi crucial, pois regulou uma proteção aos beneficiários inédita no país até aquele momento e facultou o desenvolvimento do setor com empresas sérias e comprometidas com o atendimento ao cliente.

Foi uma vitória para a sociedade que sofria com a falta de regulação e abusos no setor. Tal regulamentação culminou em acesso aos cidadãos na contratação de um plano suplementar de saúde trazendo mais segurança de assistência a sociedade, afinal imaginem se o SUS teria capacidade de atender mais de 200 milhões de brasileiros de maneira integral?

O fato relevante nesse tópico é a dificuldade de gerir um capital necessário diante aos inúmeros fatores que afetam ao setor, como por exemplo, o aumento da expectativa de vida, o dinamismo e inovações da área médica, os avanços tecnológicos, dentre outros.

Tais impactos sugiram e fomentaram crises no setor, onde todos nós pagamos o preço, seja nos custos das mensalidades ou na extinção de acesso.

  • Extinção do Plano para Pessoa Física - Regulamentação de reajustes para essa modalidade que culminou na retirada do produto do mercado por quase todas as empresas do setor, por perceberem que, ao longo do tempo, não conseguiriam atender seus clientes, devido aos reajustes abaixo da inflação médica, determinada pela ANS – Agência Nacional de Saúde.

  • Os mais novos dividem os custos dos mais idosos - Regulamentação do reajuste por idade - a lei determina que não se pode realizar reajuste a partir dos 59 anos, portanto, como equalizar o valor a ser cobrado de uma pessoa com 30 anos e outra com 70 anos?

Minha intenção é esclarecer pontos cruciais que afetam os altos custos desse mercado e não discutir se são justas ou não. Como parte atuante e consumidora tenho plena consciência do quanto é oneroso manter esse benefício.


4) Reserva técnica obrigatória

Por uma questão de proteção, as operadoras são obrigadas a manter uma reserva técnica em dinheiro, valor esse que também é contabilizado para se calcular a mensalidade. O problema é que este dinheiro fica aplicado em um fundo específico com baixa remuneração frente aos índices inflacionários e só pode ser utilizado para um determinado fim, ou seja, uma reserva obrigatória imputada a nós, beneficiários.


5) Judicialização da saúde


No Brasil criou-se o hábito de judicializar tudo. Tanto é verdade que os Tribunais Superiores foram chamados para decidir sobre a taxatividade do Rol da ANS. Essa situação foi ocasionada pela enxurrada de processos nos tribunais pleiteando a cobertura de algum determinado tratamento. A questão não se pauta no direito a ação que todos os cidadãos possuem como proteção constitucional. O problema é que juiz não é médico e diante aos bens em questão – financeiro e saúde, utilizam como premissa básica fornecer o atendimento por conta da operadora (mesmo que o usuário não tenha direito), para depois se discutir o mérito. Na prática, a operadora é obrigada legalmente a conceder o tratamento e só depois discutir de quem, de fato, é a responsabilidade pelo pagamento. E ainda que a operadora um dia ganhe este processo, após ter tido gastos com contas médicas e honorários de advogados, a chance de recuperar os valores é mínima.

E quem você acha que paga esta conta afinal?


6) O avanço da tecnologia


Como mencionado acima, o avanço tecnológico é um dos vilões que mais agravam os custos e, novamente vivemos um dilema, pois de um lado todas as milhões de pesquisas que estão sendo realizadas, os inúmeros equipamentos que estão sendo criados, a avalanche de procedimentos que estão sendo testados diariamente visam trazer mais qualidade de vida a população assistida, mais assertividade nos tratamentos e maior segurança para a humanidade, todavia, todo esse progresso resulta em custos.


7) Todos são iguais


Por questões legais, os planos de saúde são obrigados a aceitar o cliente e dar cobertura (mesmo após dois anos de carência) para qualquer doença, seja qual for o valor deste tratamento, e não poderá cobrar a mais em comparação ao cliente da mesma idade com saúde perfeita e essa determinação legal ajuda a encarecer o produto.



8) Cheque em branco

Você já ouviu essa expressão, certamente! E é isso que acontece no Brasil, diferentemente de outros países, quando o assunto é cobertura de plano de saúde. Em nosso país não existe um limitador de gastos, ou seja, a operadora de planos de saúde “assina um cheque em branco” para cobrir todo e qualquer problema de saúde que este usuário venha ter. Precificar um produto com essa perspectiva de imponderável, também, agrava os custos.


Conclusão


Expliquei alguns itens para meu cliente, no afã de demonstrar que a conta precisa fechar, pois do contrário o mercado de saúde suplementar não se sustenta. Também, é claro, que existe o lucro da empresa privada e que por vezes nos sentimos desfavorecidos frente a esse montante intocável. A verdade é que não existe solução simples e nem mágica para o enfrentamento do tema. É preciso muita coragem para encarar os desafios do setor e se não houver uma discussão séria, sem viés populista, que busque soluções técnicas e de longo prazo, cada dia mais as pessoas e empresas terão dificuldades em manter seus planos de saúde.


Cabe a todos nós uma reflexão sobre o tema!


Até a próxima!!! Se cuidem!!!

Felicidades!

Mírcia Ramos

Texto revisado por Ana Elisa Carvalho de Aguiar – Professora de Língua Portuguesa

Produção Virtual: Hannah Sloboda








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